– Ótimo Sr. José!

– E quando é que começo?

– Hoje mesmo, um instante só. Põe assim por cima, viu?

– E onde é que eu fico?

– Acompanha a Tifanny, ela te mostra.

Andava até o elevador e procurava não olhar no decote da moça que mascava o chiclete. Passando por poças escuras que talvez tivessem urina, ele fazia esforço para não sujar a barra da calça.

– É bem aqui seu Zé.

– E eu fico parado?

– Só até ás 11:00, depois o Sr. tem que ir pra Sete de Abril.

– Lá? – Apontava com o queixo –

– Isso aí.

Colocava novamente,esperava em silêncio, não em absoluto.As bicicletas zanzavam por ele com jovens rapazes e suas espinhas, levando pães para um prédio que parecia antigo, crianças descalças brincavam de esconde-esconde.

– Mais um morango com leite.

– Cadê meu pão?

– Na chapa, na chapa! Aqui, caprichado minha princesa! Com pouca manteiga.

– Chorinho?

O sol estralava lá do alto, e o Seu Zé brilhava no centro da cabeça calva, os bigodes coçavam e ele aflito sentia como se o tempo passasse em uma velocidade diferente da costumeira. A camisa xadrez branca e azul de botões brancos aderia no peito suado, desenhando uma curva até sua barriga.

No segundo dia teve de trocar, eram empregos que anunciaria. Em cada plástico, havia uma vaga. Já tinha passado da idade, bem que tentou, mas sua experiência não tinha registros. Os sem rugas e com aparelhos nos dentes saíam á frente. Junto com isso uns panfletinhos xerocados que ele anunciava:

– Atestado médico, foto 3X4, oculista…

Faltavam-lhe alguns dentes na boca, quem o lembrou foi um rapaz de tênis branco e calças largas:

– É você o dentista é? Já sei! Tá juntando pra fazer implante!

E saiu gargalhando com um grupo de amigos.

Desde então ao anunciar buscava subir um pouco mais o lábio inferior.

E dali um mês mudou o ponto, este era perto de um prédio abandonado. Em uma semana intrigado com aquele lugar tão grande, resolveu entrar.No primeiro lance da escada encontrou um carinho de brinquedo amarelo, achou graça e pôs no bolso. No terceiro lance viu o sol da janela, olhou para o peito e se sentiu um cartaz. Pra quê usar lá dentro? Ninguém estava por perto, mas porque tirar se era quase o próprio? Aproximou-se da janela e a brisa não descolou os fios centrais grudados de suor, olhou para baixo. Lembrou! E como esquecer toda a angústia mascarada com o futebol e a cervejinha? Onde estava Deus? Por certo não estava nenhum dia em que esteve ali com aquele cartaz preso ao corpo. Com o cartaz era menos do que morto, nem sequer existia. Passou a mão novamente entre os poucos fios que lhe restavam. Pôs o dedo na armação dos óculos e andou.

Com efeito. Ele desviara a atenção de todos para o seu corpo ao invés do cartaz, com exceção de um rapaz que afastou os jornais para ver onde estavam precisando de um motoboy. Conseguiu mais um temporário.